quinta-feira, 19 de março de 2015
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Dr. Oliva, avô
Dr.
Oliva, avô
por Ana Oliva
A
lembrança mais antiga que tenho de meu avô é de quando eu era bem pequena, com
uns três anos de idade. Pode soar estranho para quem me conhece e sabe o que
ele significa na minha vida, mas ele se divertia fazendo cara de sério e me
vendo correr atrás de minha avó gritando, “Vavá! Vavá!”, com medo dele.
Engraçado como hoje enxergo nessa brincadeira uma de suas primeiras
demonstrações de amor e também de como nós cresceríamos cúmplices um do outro.
Sempre
que alguém me pede para falar do “Dr. Oliva”, disparo sem pensar: “ele foi
professor, herói, confidente, psicólogo, porto seguro, amigo, guru”. Pode
parecer exagero de neta apaixonada, mas a verdade é que devo a ele grande parte
de minha formação moral, ética, familiar e emocional. Para cada um desses
títulos, tenho várias histórias a contar, posso passar horas falando sobre ele,
sempre com olhos marejados por uma saudade recente e ainda difícil de suportar,
mas também com um sorriso de quem aproveitou sua presença.
O
avô herói tentou salvar minha vida quando eu era criança. Todo final de ano,
nossa família passava uns dias na praia de Juqueí, e nós adorávamos pegar
jacaré. Um dia, a onda me levou e ele – que nem sabia nadar direito – mergulhou
e tentou me tirar de lá, mas foi levado junto pela correnteza. Sorte que nos
puxaram do mar rapidamente, mas meu avô acabou pegando pneumonia.
O
professor me ensinou de tudo. Na escola, história, geografia e principalmente,
matemática. Era rigoroso e não me deixava decorar nada, nem a tabuada. “Tem que
aprender por dedução”, dizia. Mas esse não foi seu maior ensinamento, claro.
Sempre trabalhou duro e tinha o cuidado de não nos deixar perder de vista o
valor das coisas. Passar de ano era obrigação. Presentes, só no Natal,
aniversário e quando voltava de viagem. Eu sonhava com as caixas de lápis de
cor que costumava trazer.
Ele
sempre nos deu liberdade e respeitava nosso jeito de ser. Os filhos e netos
eram tratados igualmente, e esse senso de justiça foi sem dúvida uma de suas
marcas. Preocupava-se com nossa formação nos mínimos detalhes, o que nem sempre
nos deixava felizes. Costumávamos passar alguns finais de semana em São Paulo,
mas enquanto a gente queria comer no Dunkin’ Donuts e brincar no Playcenter,
ele nos levava a restaurantes e museus. O divertido mesmo era ficar no hotel,
no centro da cidade. Uma vez, perderam nossa reserva e o gerente colocou toda a
família num quarto enorme, foi uma festa.
Eu
e meu irmão Paulo adorávamos brincar no escritório dele, foi assim que começou
nossa vida de “executivos”. Paulo era o meu avô e eu, sua secretária. Só quando
nossa irmã mais nova Rita cresceu é que passou a fazer parte da brincadeira, no
papel de faxineira. Ela ficava chateada quando nós a demitíamos. Hoje penso no
quanto meu avô repetia que a grande riqueza é criar empregos, uma ironia
engraçada quando lembro dessa época.
Eu
achava o máximo visitar a fábrica, era fascinada em ver os tanques de lavar
roupa, achava aquilo lindo. Fui até fotografada quando criança dentro das
banheiras para catálogo de produtos da Astra. Com espuma na cabeça, claro, só
queria se fosse assim.
Já
adulta, comecei a seguir os passos do meu avô. Logo cedo, aos 17 anos, ele me
fez aprender contabilidade “da vida real” trabalhando numa loja, em Jundiaí.
Durante a faculdade, fui trabalhar no mercado financeiro em São Paulo, contra a
sua vontade, até brigou comigo por um tempo. Depois quis fazer MBA fora, mas
ele não deixou, sempre quis a família por perto, e hoje eu o agradeço por isso.
Talvez
esse seja meu maior agradecimento, o de me manter por perto. Ele esteve ao meu
lado nos momentos mais importantes de minha vida. Sempre forte, sempre
presente, sempre ouvindo e me mostrando mais do que conseguia enxergar. O “Dr.
Oliva” de tantos foi único para mim. Um grande homem para fora, mas aqui
dentro, ele ocupou todos os espaços possíveis. Chorou ao meu lado, rimos muito
juntos, brigamos com amor e, em seus últimos dias, tinha uma única preocupação
na cabeça, a de que a família ficasse unida dando continuidade ao seu legado. É
o que faremos!
Descanse em paz, estamos bem, como
sempre desejou e graças a você, meu avô.
Ana Oliva é presidente
do Conselho Administrativo da Astra e neta do Dr. Francisco de Assis Cechelli
Oliva, um dos fundadores da empresa, que faleceu no dia 27 de novembro de 2014.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Meu herói, segundo Sandro Vaia
Oliva, mil prédios. E uma caixa de lápis de cor
por Sandro Vaia
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por Sandro Vaia
Houve um tempo em que empresários eram chamados de “capitães da indústria”, quase sempre em tom de bajulação.
Francisco de Assis Cechelli Oliva, que morreu nesta sexta-feira, dia 28 de novembro de 2014, aos 88 anos, um dos fundadores da Astra, detestaria ser chamado de capitão de qualquer coisa.
Oliva, formado em engenharia na Politécnica, onde depois foi professor, era um criador de coisas, um empreendedor, um daqueles personagens que preencheriam uma temporada inteira daquele programa publieditorial de sucesso na TV nos anos 90, “gente que faz”.
Magro como um passarinho, frugal, discreto, casado com Ana Maria e pai de 3 filhas (Mônica,Patrícia e Regina), avô de cinco e bisavô de um, Oliva, que além de criar a Astra,a Finamax e a Malota, plantou centenas de prédios em toda a cidade onde moram milhares de famílias de todas as classes sociais, tinha um espírito público e um senso de justiça indestrutíveis.
Foi por esses princípios que guiou a sua vida.
Por isso, durante o período 1973-1977, em plena ditadura militar, juntou-se a um grupo de pessoas para criar o “Jornal de Segunda-Feira”, para fazer oposição cerrada à administração do prefeito Ibis Cruz, um arenista acusado de favorecer, em concorrências suspeitas, negócios com empreiteiras em obras urbanas de Jundiaí. Empreiteiras com ligações em altas esferas, que removiam obstáculos legais (como o limite de endividamento da cidade) em uma penada, por “ordens de cima”.
O jornal era a trincheira escrita onde se denunciavam irregularidades na administração da cidade, e onde, de quebra, inflitrava-se um pouco do espírito anarquista do “Pasquim”, o grande fenômeno editorial da época, que tratava as mazelas do governo militar com um misto de deboche, ironia e crítica reflexiva séria.
Oliva, Admércio Lourenção, Virgilio Torricelli, Mano de Souza, Celso de Paula, Araken Martinho, dr. Araújo, que assinava Bartimeu, Carlos Veiga, Erazê Martinho, André Benassi e muitos outros foram ao combate e fizeram sem querer -e talvez sem saber – uma revolução na imprensa da cidade. Nunca antes uma administração pública foi tao vigiada e vasculhada, tanto que o prefeito da época nunca mais se elegeu para qualquer cargo público, e a construtora Andrade Gutierrez, favorecida por uma concorrência fraudulenta para construir a avenida 9 de Julho foi condenada em uma ação popular a ressarcir os cofres públicos.
Nem só de grandes causas e grandes empreendimentos se ocupava o dr. Oliva. Quando viajava ao exterior, sempre tinha o cuidado de comprar um belo sortimento de lápis de cor para dar de presente ao Nardinho, um tocador sobrenatural de cavaquinho, uma verdadeira lenda viva, e que tinha os seus arroubos de artista “naif”. Nardinho desenhava bucólicas paisagens rurais onde o curso de um rio era interrompido por uma cerca, onde um aviãozinho sobrevoava paisagens pastoris, onde vacas pastavam ao lado de misteriosas linhas de trens interrompidas bruscamente por montes inescaláveis.
Oliva ouvia o cavaquinho de Nardinho e Zé Coveiro, o violão de Zé Danon, curtia a voz de Cacilda Romero, o pandeiro do Iólice, e seu espírito de Mecenas não declarado, o levou a criar os concertos Astra-Finamax, a mais formidável série de espetáculos de música erudita e popular já oferecida à população da cidade, a preços realmente populares.
À rigorosa exatidão de um engenheiro formado na Poli, depois professor da mesma Poli, consultor financeiro de grandes empresas, como o Itaú, mais tarde dono de sua própria financeira, Oliva somava seu espírito visionário.
Uns 15 anos atrás, quando a redação do “Jundiaí Hoje”, jornal fundado sem sua participação mas com sua ajuda e seu incentivo, se instalava na rua do Retiro, no topo de um enorme terreno que começava na avenida 9 de Julho, ele descrevia com minúcias o Beco Fino que iria nascer ali anos mais tarde, e qual seria sua função na vida cultural, recreativa e empresarial da cidade. Não tinha pressa. Mas era exato em tudo o que previa, em tudo o que fazia.
Li no JundiAqui sobre sua morte, e a nota dizia que ele era patrão de 3 mil jundiaienses. Outra palavra que ele detestaria: patrão. Oliva não era patrão. Era um criador, que fazia coisas, criava empregos, montava empresas, inventava produtos, erguia edifícios, dirigia equipes, defendia princípios, e se ganhava muito dinheiro com isso ele não se importava e nem saberia como usá-lo em proveito próprio – tanto que tomava seus parcos goles de vinho ou vermute em copos americanos como se fossem de cristal da Boêmia – apenas replicava o sonho dos founding fathers da América, que era a de criar uma comunidade de homens livres, responsáveis e onde a igualdade de oportunidades fosse a matriz da prosperidade de todos.
Morreu com seu sonho: em vez de pular numa piscina de moedas, como Tio Patinhas, queria fazer um jornal de literatura e poesia. Quem sabe não poderia nascer aí um novo Drummond?
Texto originalmente publicado em http://www.jundiaqui.com.br/?p=7536segunda-feira, 3 de novembro de 2014
O esporte como impulso à carreira
Depois de mais um longo período sem passar por aqui, aí vai uma matéria interessante feita pelo Jornal de Jundiaí falando sobre o papel do esporte no dia a dia dos executivos. Acho que muitos de vocês vão se identificar! E a melhor surpresa: após ver a matéria, quem estava junto na entrevista? Meu grande amigo e parceiro de longa data Lelo Apovian, que admiro muito como pessoa, atleta e empresário.
Bjocas com saudades!
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Acordando o blog: uma entrevista
Para a tchurma que sentiu falta dos Diários para o Ironman que escrevia para a MundoTri, e dos duelos entre o Tico e o Teco... rsrs... Publico uma entrevista que concedi recentemente para um informativo de uma das empresas em que atuo, com uma analogia entre a vida profissional e a vida esportiva. Boa leitura!
Tijolinho
por tijolinho, um crescimento sustentável
Entrevista com Ana Oliva, vice-presidente
da Finamax
P: Como foi o momento de assumir a vice-presidência
da Finamax?
R: Na
verdade, foi apenas uma formalização do cargo. Não se vira vice-presidente de
uma financeira da noite para o dia, até porque respondemos para o Banco
Central, e eu dependia da aprovação desse órgão para assumir. Eu já participava
do dia a dia da empresa, estava bem envolvida com todas as áreas. Foi e é uma
responsabilidade muito grande. Como diz o meu avô, a base do negócio é a
confiança, e meu desafio é grande para que ela se perpetue.
P: Qual o maior desafio da Finamax hoje?
R: O maior
desafio é continuar crescendo de forma sólida. De nada adianta alavancarmos a
carteira se ela não for sólida, ou seja, se a inadimplência estourar junto. É
condição sine qua non acompanhar o
mercado e se reinventar constantemente, mantendo uma política de crédito
conservadora. Em resumo, crescer com “pé no chão”. Nosso tripé é a captação, o
crédito e a cobrança, e temos que evoluir nessas três frentes de forma
equilibrada.
P: Em 2013, a Finamax teve uma expansão
geográfica muito forte, chegando a várias cidades e ampliando a atuação em
algumas delas. Isso vai continuar nos próximos meses?
R: Sim. Como
meu avô diz, é um crescimento extensivo e intensivo. Cada praça tem o seu
potencial, característico de cada região. Se o potencial de determinado local
não é explorado, trabalharemos para fomentar negócios. Na verdade, é uma
estratégia de crescimento pulverizado, o que minimiza o risco, valorizando onde
enxergamos espaço para crescer.
P: Você foi uma atleta de representatividade
na sua modalidade. O que o esporte a ensinou que é possível trazer para o dia a
dia dos negócios?
R: A forma
como eu lido com o esporte é um reflexo da forma como eu lido com tudo em minha
vida. Sou perfeccionista, vou querer sempre fazer o meu melhor. O esporte de
performance exige disciplina. Já ouvi muitas pessoas falando que eu tinha uma
genética favorável, mas para mim, o esforço e a dedicação estão acima da
genética. Por isso, minha resposta era sempre a dada pelo técnico Lauter
Nogueira: “Sim, tenho a genética da disciplina.” Foco, determinação, correr
atrás de algum objetivo, superação... É o tijolinho por tijolinho, dia após
dia, degrau por degrau. Há dias bons, e dias não tão bons, mas com essas
palavrinhas, você continua seguindo na mesma direção, com a consciência de que,
para chegar a algum lugar, você tem que correr atrás.
P: Como você vê a Finamax daqui a 20 anos?
R: Olhando para
frente, temos as variáveis controláveis e as incontroláveis. Nos próximos 20
anos, é óbvio que eu espero que a gente esteja maior, com uma carteira mais
equilibrada, com o nosso tripé mais equilibrado. Mas acho complicado estimar
números para o futuro. Temos que nos adequar à realidade. As pessoas têm que
confiar na empresa, e a empresa tem que confiar na sua equipe, pois juntos já
passamos por diversas crises do Brasil, e assim continuaremos as enfrentando.
Sempre que estamos passando por um problema, vamos achar que aquele é o pior
momento da história. Mas olhando para trás, nosso grupo já passou por tantos abalos
da economia... Se você não acreditar no negócio, não adianta. Tem que acreditar
e correr atrás. Temos que manter uma política de crédito conservadora, sempre
nos adequando ao mercado. O grande desafio para os próximos 20 anos é continuar
crescendo de forma sustentável, sem fazer loucura, com os pés no chão.
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